Divergências de opinião

“(…)Há, porém, princípios sobre os quais temos certeza de não estar enganados: é o amor do bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e de ciúme. Esses são os nossos princípios; com eles podemos sempre simpatizar sem nos comprometermos; é o laço que deve unir todos os homens de bem, seja qual for a divergência de suas opiniões. Somente o egoísmo interpõe uma barreira intransponível.” (Allan Kardec, Revista Espírita, 2º volume, 1859)

Uma senhora adentra o centro espírita para as atividades de estudo daquela terça-feira. Ainda no anfiteatro encontra com seus amigos e decidem trocar cumprimentos e impressões sobre as últimas notícias da nossa turbulenta política. Talvez esquecendo-se do ambiente no qual estava, a senhora não resiste e expõe verbalmente uma série de impropérios sobre a figura da presidente da República. Um dos ouvintes, atônitos, reprova a atitude da companheira com a qual estudava por mais de 5 anos, gerando um certo mal estar. Em seguida a senhora o inquire se o mesmo defendia corruptos. Sabiamente, um dos companheiros que ouviu a conversa interrompeu o diálogo que poderia se prolongar negativamente e os convidou para iniciar as atividades doutrinárias. O clima desagradável entre ambos, no entanto, permaneceu por alguns dias.

Nesse clima atual de polarização política extremada, e nociva, podemos nos perguntar: como conviver com as divergências de opiniões? Respondo a isso com outra pergunta: quando foi que vivemos em algum lugar ou instituição onde todos pensavam igual? A responta é simples. Nunca. As diferenças sempre existiram, e isso é bom porque é em um ambiente plural que podemos aprender com o outro, aperfeiçoar nosso posicionamento, nossas ideias,  aprender a desenvolver a tolerância e alteridade. Assim, a divergência de ideias só é um problema quando um dos lados não consegue respeitar o ponto de vista do outro.

Mas pensemos em um outro cenário: e quando a opinião do outro é baseada em preconceitos sociais, raciais, sexuais ou outros? E quando a opinião incorre em crime? Nesse caso temos as leis que sabem tratar devidamente o indivíduo que se utiliza da premissa da liberdade de expressão para promover o ódio ou preconceito a outrem. Como cidadãos temos o dever de orientar, esclarecer e, se necessário, intervir. Mas não podemos utilizar a ignorância alheia como desculpa para que nos esqueçamos do nosso dever de não sermos agentes de propagação da violência, seja ela verbal ou física.

Viver em sociedade, principalmente em uma sociedade marcada por tantas divisões econômicas e sociais, implica também na construção de diversos pontos de vista. A nossa formação educacional, cultural, o ambiente familiar, as relações profissionais, tudo interfere na forma como enxergamos a vida. Como espíritas, o que nos une é justamente o “esforço que empregamos para domar nossas más inclinações” e nossa firme certeza nas premissas espíritas tão bem reunidas por Kardec nas obras da Codificação. E, como disse o mestre de Lion, somente o egoísmo é que poderá erguer uma barreira entre nós.

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